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Não existe democracia

Mugem, por todos os cantos: entre os “liberais”, “socialistas” de apartamento, entre os cristãos e ateus, nos jornais, nos programas televisivos, nas revistas políticas, nas produções acadêmicas, em rodas de conversa, entre os sarauzeiros, nos partidos políticos (sejam eles de “esquerda” ou “direita”), nos movimentos sociais, entre os supostamente “desconstruídos” e etc., o amor pelo regime democrático burguês.

Tais mugidos tem como objetivo, em sua totalidade, defender esse regime, seus princípios – poder ao povo, liberdade e igualdade –, que norteiam a vida política e social ao conjunto de indivíduos, além de tantas outras coisas ligadas ao conhecido e hiperbolicamente defendido modo de governo, quando o mesmo encontra-se “ameaçado”.

Em sua forma antiga, essa “oitava maravilha” teria como essência a delegação de todo o poder político e social aos cidadãos de algumas cidades gregas, principalmente Atenas. Nesse período histórico grego, poder de controlar a sociedade estaria nas mãos dos cidadãos e, com efeito, o uso desse poder, por sua vez, colocaria em prática o que essa maioria assim desejasse. Tudo muito lindo, tudo muito maravilhoso!

Em nosso tempo, o tempo do domínio burguês, por sua vez, tal essência se manteria. O poder político, num regime democrático de nossa época, seria, também, delegado pelas vontades e desejos de seus cidadãos. Mas, por ser uma sociedade de massas, o poder de deliberar as diversas questões que impactam a vida em coletivo não estaria nas mãos de todos. Esse poder, por sua vez, estaria nas mãos de representantes, escolhidos “conscientemente” pelo povão. Aqui, também, é tudo muito lindo, tudo muito maravilhoso!

Agora, depois desse esoterismo político, fantasiado, processado e enraizado historicamente nos mais diversos corações e mentes “libertários”, encaminho o texto para o que está profundamente ocultado, especificamente na democracia moderna, e que escapa aos olhos desses asnos defensores de sua própria escravidão: o modo de produção capitalista.

É ele, o modo de produção capitalista, ou melhor, o modo como a sociedade moderna produz sua existência, o verdadeiro imperativo; é essa estrutura imperiosa que determina, efetivamente, a esfera econômica, política, social, ideológica etc; é ela que faz acontecer, grossamente falando, ao seu modo, a sociedade. Para além dela, tudo é cosmético, elementos de superfície, apenas epidérmicos, pueril, sem força efetiva e deliberativa.

Assim, falta aos pertencentes da “guarda-real da democracia moderna”, seja por ignorância aguda ou cegueira consciente, o entendimento sobre o papel exercido por esse modo de governo. Apesar de idealmente ser maravilhoso, ele oculta a verdadeira essência de nossa sociedade, o modo de produção ao qual todos nós estamos subordinados.

Falta-lhes isso, a percepção de que o regime democrático burguês não goza, de modo mais direto e reto, de papel efetivo de produzir uma real transformação social, pois o mesmo não possui autonomia frente ao que está subjugado: o capital e seu assessor direto, a burguesia!

Como efeito mecânico da ilusão que o regime democrático burguês produz, passamos a acreditar em algo que beira à fantasia mais ingênua: a crença de que todas as tensões estruturais e específicas de nossa sociedade que envolvem, por exemplo, antagonismos de classe, pobreza, racismo, machismo, violência, educação, cachorros de rua etc., podem encontrar remédio pela via jurídica, através de pequenas modernizações na legislação e nas instituições, ou por negociações feitas por nossos digníssimos representantes eleitos.

“Como assim? Como a democracia representativa não leva a nenhum lugar? Como ela não transforma a sociedade e nos coloca em uma marcha para, quem sabe, chegarmos ao mundo perfeito que idealizamos?” São, sem dúvida, as perguntas que muitos estão se fazendo e que, brevemente, responderei de forma seca no pouco espaço que ainda me sobra nesse texto.

O problema é esse: a democracia burguesa processa na consciência coletiva a ideia infantil de que uma luta ingênua, como utilizar cartazes dos mais bizarros, coletivos dos mais caricatos, movimentos sem organização política alguma ou qualquer outra imbecilidade tosca, podem nos libertar dos nossos escravizadores e, assim, construirmos um mundo sem miséria, desigualdade e exploração.

O limite é esse: a defesa desse regime político nos joga, cotidianamente, em lutas e sonhos superficiais que em nada e em lugar nenhum chegaremos. Por isso ele é inútil como via de emancipação, pois ele não pode acabar com a sociabilidade dessa sociedade, ou melhor, com o modo de produção capitalista.

Na verdade, verdadeira, a democracia burguesa é o modo de governo ideal, perfeito, para o modo de produção capitalista ao qual ela faz parte. Ela ajuda a manter, não a derrubar, a sociedade dos escravos do salário. Entende? Por isso esse regime político só serve a um senhor. Aqui está o X da questão. Independentemente de você querer ou não, de ser PT ou não, sempre será burguesa. Ou seja, ela sempre servirá ao seu dono, não aos seus escravos!

Leitores, percebam! São os nossos próprios “senhores”, os donos dos meios de produção, os donos do capital, os donos dos meios midiáticos de massa, esses “demônios” que devoram nossas vidas para alcançar o máximo de lucro, que montam o “palco”, esticam a lona e nos colocam como cães adestrados e dóceis para ensaiar diariamente a peça de “liberdade” e “igualdade” mais fake da história da humanidade: a democracia burguesa!

Enganados por tal fantasia, somos levados a acreditar que jogar o jogo político do Estado burguês é a única via onde poderemos cada vez mais ter controle do poder político e, com efeito, controlar a legislação, até que, finalmente, num dia singular, em que o sol nascer no Oeste e se pôr no Leste, o controle da produção deixaria de ficar nas mãos dos capitalistas, e toda a sociabilidade estrutural desse tipo de modelo de vida deixaria de dar as cartas para dar lugar ao mundo encantado dos democratas. Que fantasia!

Se realmente desejamos uma real transformação social, um verdadeiro caminhar para o fim da escravidão do salário, se queremos nos libertarmos dos grilhões que nos prendem, é preciso mexer com essa estrutura social. Sem esclarecimento sobre o que realmente é esse elemento, sem atacá-lo, sem trincá-lo e derrubá-lo, não fazemos mais que enxugar gelo.

O nosso verdadeiro horizonte deve ser a transformação das relações de produção capitalista. Essa é a verdadeira essência! O resto é sonho, ignorância ou qualquer outra coisa semelhante que não liberta, mas embriaga e nos aprisiona e nos mantém explorados! É somente através dos radicais que nascerá uma via real que colocará os explorados em marcha para uma verdadeira emancipação. Essa via só é possível pela violência, mas uma violência emancipadora. A via da revolução violenta!

Dhiego Carreira