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TRABALHO ALIENADO, DEPRESSÃO E ANSIEDADE

 

 

"Trabalhas sem alegria para um mundo caduco."

Drummond.

 

Como é sabido, não há vida humana sem trabalho: homens e mulheres precisam, eternamente, transformar a natureza para produzir objetos necessários à sua reprodução material e “espiritual”. Nesse sentido, a estrutura e o funcionamento de uma sociedade depende principalmente da forma como ela organiza suas relações de intercâmbio orgânico com a natureza. O trabalho é, assim, a atividade principal dos seres humanos, já que é a partir dele que os indivíduos, ao modificarem a natureza exterior, produzem a si mesmos. É a através dele que se criam todos os objetos com valor de uso imprescindíveis à existência, foi a partir do trabalho que se originou a cultura, a linguagem, a sociabilidade, etc. O trabalho é, portanto, a nossa essência histórica.

Contudo, no modo de produção capitalista, que é o mais desenvolvido de todos os tempos, os trabalhadores estão desapropriados dos meios de produção (instrumentos de trabalho, matéria-prima) e por isso são obrigados, para sobreviverem, a vender sua força de trabalho no mercado. O burguês, que é o proprietário privado dos meios de produção, compra determinada quantidade de horas do seu dia e em troca lhe paga um salário. Este serve para reproduzir os meios de vida do trabalhador(a) e de sua família. Mas o “segredo” desta relação reside no fato de que o salário é a expressão monetária de parte da jornada de trabalho: o trabalhador produz um excedente que é expropriado pelo capitalista, a mais-valia. Assim, ele paga ao proletário por uma parte da quantidade de horas “alugada” durante o dia, a semana, etc.

Mas é preciso enfatizar que o salário é não um roubo praticado pelo capitalista sobre os trabalhadores, mas a manifestação necessária de uma relação social de produção que tem na lei do valor seu calcanhar de Aquiles: o valor de uma mercadoria é determinado sempre pelo tempo de trabalho abstrato à sua produção. Por isso, o valor da força de trabalho é, como qualquer mercadoria, determinado pelo valor dos meios de subsistência necessários para reproduzi-la: alimentos, moradia, vestimenta, etc., e outras necessidades criadas historicamente.

Dada a sua natureza exploratória, o trabalho sob o regime do capital torna-se uma atividade sem sentido, controle e consciência: por isso é alienante. Despojado de qualquer riqueza material, necessitando sobreviver, o indivíduo vende seu tempo e capacidade de trabalhar para não morrer de fome. Ou seja, sua atividade principal, o trabalho, torna-se um meio e não a manifestação da vida.

Assim, neste processo alienante, porque coercitivo e sem controle, as relações dos homens e mulheres com a natureza e com os demais indivíduos do gênero humano tornam-se estranhas. A perda de controle sobre os produtos da atividade humana, principalmente no seu processo de produção, cria relações e fenômenos que servem de barreira ao desenvolvimento da própria humanidade. Por exemplo: o avanço das forças produtivas usadas para fins capitalistas. Elas aumentam a produtividade, mas ao mesmo tempo causam desemprego e intensificam o trabalho para aqueles que continuam no processo produtivo. Daí porque o medo de ficar sem emprego é tão constante no mundo contemporâneo. Ele gera ansiedade, perda de sono, aumenta a disputa entre os trabalhadores, alimenta a ideologia burguesa da meritocracia e do individualismo. A guerra de todos contra todos é instaurada.

Por isso, a perda de sentido da vida é constante na sociedade burguesa. As depressões, o tédio, os suicídios, a ansiedade, etc., não são fenômenos apenas individuais. São expressões, nos afetos e sentimentos humanos, da alienação do trabalho promovida pelo capital. Sim, sem dúvida que cada indivíduo tem sua particularidade biográfica, como a relação com sua família, sua personalidade, etc. Mas vejam, por exemplo, o aumento expressivo da depressão nos dias que se seguem: segundo a Organização Mundial de Saúde, há mais de 300 milhões de pessoas depressivas em todo o planeta! É uma das doenças psicológicas que mais afasta, atualmente, indivíduos do emprego. Por isso, não pode ser analisada nem combatida como simples problema psicológico.

Cada dia mais, o capital rouba características humanas e as devolve como forças produtivas que aparecem com vida própria ao trabalhador: primeiro foi a sua força física, depois a capacidade intelectual, agora vemos os afetos e sentimentos humanos em máquinas que falam, conversam, “sentem”, interagem-se com indivíduos de carne e osso.  Por isso, o fenômeno da alienação se intensifica freneticamente.

Nesse sentido, diante da velocidade da vida, do medo do desemprego, da ansiedade em disputar um lugar ao sol na praça das mercadorias, da disputa constante entre companheiros e companheiras da mesma classe social; do tédio de um trabalho repetitivo e sem criatividade; do cansaço de um cotidiano brutalizado e sem sentido: diante de tudo isto, o indivíduo se autodestrói. O uso obsessivo das drogas, o estresse, os suicídios, etc., são respostas constantes frente ao desespero que gera as contradições da barbárie na civilização do capital.

Contudo, frente a tudo isto, não cabe ser romântico: clamar pela volta de um passado místico nas sociedades pré-capitalistas. Há sempre falsas alternativas que surgem em nosso cotidiano, alternativas que prometem dotar a vida de sentido nesta sociedade de classes. Todas elas, apesar da diversidade que carregam, colocam sempre o indivíduo como o centro do universo: é no seu “interior”, na sua subjetividade neurótica, que o sentido da vida, sua emancipação e vigor, encontram-se! Por isso, é preciso, por exemplo, que a crítica não vá em direção à ciência e tecnologia, mas seu uso capitalista, sua aplicação no processo produtivo para aumentar a produtividade e gerar desemprego.

Somos personificações de tempo de trabalho e de capital. Por isso, não é possível uma ética nesta sociedade: competimos, somos concorrentes, seja para arrumar um emprego, seja para vender mercadorias. É uma condição objetiva. Quando não associada a superação do modo de produção capitalista, qualquer apelo moral, coletivo, de valores autênticos, que levem em conta as reais necessidades humanas, tende a perecer. A loucura instalada em nossa subjetividade implica em: para sobrevivermos, precisamos vender nossa essência, o trabalho. Em vez de manifestação da vida, ele se torna, portanto, um meio dela. O trabalho explorado nos reduz a meros dados biológicos, nos embrutece, nos rouba tempo e criação. Por isso, a emancipação do trabalho alienado deve ser objetivo primeiro na luta dos explorados e oprimidos.

Leonardo Chacal